Aprender BAT: a teoria, a prática e uma chihuahua

A distância é rainha e senhora. E eu entendo porquê.

Um dos princípios base do BAT é a distância ao gatilho, ou seja, àquilo que faz o nosso cão ser reativo. No nosso caso, são os outros cães. Não todos, mas são os cães. Crianças e pessoas, o Ziggy adora.

Comecei por aplicar, numa primeira fase e de acordo com a educadora canina, o "Yes" para depois colocar em prática o Mark & Move, que faz parte das competências de sobrevivência do BAT, o Behavior Adjustment Training. Ou seja, primeiro associei algo positivo ao "Yes" de forma a que, na rua, quando utilizasse o marcador verbal, ele soubesse que era algo positivo.

Mas estou a adiantar-me. Antes de mais, importa perceber o que é o BAT, a filosofia e o que inclui, para depois conseguirmos perceber a prática. Mais adiante retomo o relato das nossas primeiras experiências.

O que é o BAT?

BAT significa Behavior Adjustment Training (Treino de Ajuste Comportamental) e foi criado por Grisha Stewart, uma treinadora e comportamentalista canina certificada (MA, CPDT-KA, KPACTP).

É um método de treino para cães reativos (que ladram e rosnam, nalguns casos, tentam morder) baseado numa ideia simples mas poderosa: o comportamento problemático existe porque o cão está a tentar satisfazer uma necessidade, geralmente a de se sentir seguro. O método foca-se em construir confiança, não em suprimir comportamentos.

Há uma citação que a Grisha usa nas suas formações, atribuída a Viktor Frankl (ou talvez a Steven Covey, ela própria admite a incerteza), que resume bem a filosofia:

"Between stimulus and response there is a space. In that space is our power to choose our response. In our response lies our growth and our freedom."

Ou seja, entre o momento em que o Ziggy vê um cão e o momento em que reage, existe um espaço. O BAT trabalha exactamente esse espaço: alargá-lo, preenchê-lo com segurança, para que ele possa escolher uma resposta diferente.

Porque é que o meu cão faz isto?!

Antes de falar do método em si, a Grisha alerta para algo que considero fundamental: o Erro Fundamental de Atribuição (Fundamental Attribution Error).

É uma tendência natural humana que nos faz atribuir o comportamento dos outros ao carácter, enquanto explicamos o nosso próprio comportamento sempre como uma resposta ao ambiente. Quando alguém nos corta a fila, é porque é mal-educado. Quando nós cortamos a fila, é porque estávamos com pressa e não havia outra opção.

Com os cães, fazemos o mesmo. Dizer que um cão é "dominante" ou "malicioso" é um Erro Fundamental de Atribuição: estamos a atribuir o comportamento ao carácter do cão, quando na verdade ele está simplesmente a responder ao ambiente da única forma que sabe.

A verdade é mais simples e mais compassiva: os cães ladram, rosnam ou mordem para satisfazer uma necessidade. Na maioria das vezes, o objetivo é afastar o que os assusta, fazer o outro cão, a pessoa ou o estímulo ir embora. Outras vezes é o oposto: querem aproximar-se e não sabem como. Pode também ser dor, guarda de recursos ou predação. Mas acima de tudo: eles não sabem fazer diferente.

A segurança é uma necessidade básica

A Grisha apresenta uma espécie de hierarquia das necessidades caninas: na base estão a comida, a água, o abrigo e a segurança. Só depois surgem a comunidade, o exercício, a previsibilidade e o controlo. No topo de tudo, a satisfação.

O trauma e a falta de socialização comprometem exactamente essa base. 

Trauma é uma aexperiência que ultrapassa a capacidade do cão de lidar com a situação, fazendo com que ele passe a partir do princípio de que não está seguro, como se o perigo estivesse sempre presente no próprio corpo. Um cão inexperiente, por outro lado, tende a encarar tudo o que é novo como perigoso e tem muito menos capacidade de se adaptar.

Quando o cão se sente seguro, algo muda completamente. 

Ele consegue recolher informação: "O que é este lugar? Como me posso mover aqui? O que é seguro ou perigoso?" E a partir daí, formar relações: "Quem está aqui? Vou ser rejeitado? Como é que se interage? Estas são as minhas pessoas!"

Segurança não é o fim do caminho. É a condição para que todo o resto possa acontecer.

Os Valores do BAT

O BAT assenta num conjunto de crenças que vão muito além do treino canino. São quase uma filosofia de vida.

A segurança, o pertencer e o contentamento são necessidades centrais. 

Por oposição, a falta de segurança e de pertença pode levar à violência e ao controlo, tanto em humanos como em cães. 

Ao ajudar cães e as suas pessoas a sentirem-se seguros e protegidos, é possível quebrar o ciclo de comportamentos prejudiciais, seja a agressividade do cão, seja a forma como nós próprios reagimos ao stress dos passeios. Para isso, o BAT trabalha três coisas: 

  1. as competências para avaliar se uma situação é realmente perigosa, 
  2. a experiência real de se sentir seguro,
  3. e comportamentos que aumentem a ligação entre cão e dono.

Há ainda um segundo conjunto de crenças, igualmente importante. 

A empatia e a comunicação. Competências que se aprendem. Cada ser é um indivíduo com as suas próprias necessidades, e o comportamento não é mais do que uma estratégia para as satisfazer. O ambiente importa: mudá-lo pode mudar o comportamento. E quando há conflito, não são as necessidades que estão em oposição, são os hábitos. Acima de tudo, o BAT propõe uma postura: procurar sempre o Melhor Cenário Possível.

Os 4 Pilares do BAT

O BAT organiza-se em quatro grandes áreas, cada uma com um propósito específico:

1. Práticas de Relação: tornamo-nos alguém de confiança e o cão sente-se mais seguro. 

2. Competências de Sobrevivência: os passeios ficam mais fáceis e o cão sente-se mais seguro. 

3. Competências de Trela: os passeios ficam mais seguros e o cão tem mais liberdade. 

4. Set-Ups para Praticar: o nosso cão aprende fluência social.

Vou explorar cada um em detalhe.

1. Práticas de Relação

Esta foi a área que mais me surpreendeu quando comecei a aprender BAT. Esperava técnicas e elas existem. Mas o que também encontrei foi algo muito mais profundo: uma reflexão sobre o que significa ser uma figura de referência para o nosso cão.

Há investigação com fMRI (ressonância magnética funcional) que mostra que, quando os cães processam imagens do seu cuidador, activam as mesmas regiões cerebrais associadas à emoção e ao processamento de vinculação nos humanos. Com pessoas familiares, as activações são relativamente fracas. Com estranhos, processam apenas visualmente. O cuidador activa algo diferente: é processado como vinculação, não apenas como reconhecimento (Smith, 2023).

Na prática, as Práticas de Relação incluem exercícios de calma para o dono (em primeiro lugar), observação da linguagem corporal do cão, consentimento para o contacto físico e respeito pelos limites. A ideia central é simples: o cão sente o que nós sentimos. Se eu estiver tensa na trela, ele sente. Se eu respirar fundo e me centrar, ele também sente.


2. Competências de Sobrevivência

Chegamos à parte que mais usei até agora, e onde tenho as histórias mais concretas para contar.

As Survival Skills são um conjunto de técnicas práticas para gerir situações difíceis durante os passeios, quando o cão encontra um "gatilho". A lógica central: usar sempre a opção menos intrusiva que resulte naquele momento.

retirado do livro BAT 2.0 da Grisha

Mark & Move

Quando é possível afastar o nosso cão do gatilho, o Mark & Move é a primeira escolha. 

Marcamos o comportamento positivo do cão com um marcador verbal ("yes" ou "done?") ou um clique, e movemo-nos com ele para longe da situação. 

Podemos complementar com um Hand Touch (nariz à mão enquanto nos afastamos), um Find It (atirar comida no chão enquanto nos afastamos) ou uma curva de emergência. 
A recompensa é escolhida na hora: a ideia é usar sempre a opção menos intrusiva que resulte naquele momento.

A Support Scale (figura seguinte) mostra exactamente isto: nos primeiros dois momentos, o cão está relaxado e segue livremente enquanto observamos o ambiente. 

A partir do terceiro, começa a mudar de postura, a crescer ou a encolher, como se começasse a entrar dentro de água. É esse o sinal de que está a aproximar-se dos seus limites e que devemos intervir, aumentando gradualmente o nosso apoio. O objectivo é sempre usar o mínimo de suporte necessário: deixar o cão resolver e só depois ir ajudando consoante ele precisar.

retirado do livro BAT 2.0

Quando não conseguimos afastar o cão

Quando não conseguimos afastar o cão, as estratégias mudam. O primeiro passo é sempre respirar, começando pela expiração, e mantermos-nos estáveis. Ajoelhar ajuda a baixar a nossa energia e a não puxar a trela para cima, o que o cão sente imediatamente.

Se conseguirmos a sua atenção, podemos usar o targeting repetido: pedimos-lhe que toque com o nariz na nossa mão, várias vezes seguidas. É uma forma de o trazer de volta ao momento presente e de o focar em nós em vez do gatilho.

Outra opção é usar barreiras físicas para criar distância visual: um carro estacionado, uma árvore, ou até o nosso próprio corpo entre ele e o que o está a assustar.

E quando nenhuma destas opções chega, há o Windshield Washer Game. 

Imagina um limpa-pára-brisas a ir e a vir: damos uma treat quando o cão olha para o gatilho, e damos outra quando olha para longe. Alternadamente, sem parar. O objectivo é manter o cão ocupado e num estado de activação moderada, evitando que a situação escale para uma reacção completa.

Aprender linguagem corporal

Este é um dos pilares menos falados mas mais importantes. Saber o que o cão está a comunicar antes de reagir permite-nos intervir mais cedo, com mais calma e com muito mais eficácia. A Grisha tem dezenas de aulas sobre linguagem corporal na Grisha Stewart Academy, e é uma área que vale muito a pena investir.

A nossa experiência com o Mark & Move

Há uns meses comecei o Mark & Move, mas depois com a vida, acabei por deixar de o fazer. Erro meu. A reatividade aos outros cães foi retomando gradualmente. Em jeito de confissão: eu não era consistente.

Mas desta vez, estou empenhada. Por nós.

Comecei por associar positivamente o "Yes" com treats, em casa. Sempre que podia, quando ele fazia algo positivo ou ia buscar um boneco para brincar, lá dizia o "Yes" a que se seguia um biscoito.

Estávamos no parque urbano onde costumamos ir e entrou um cão. 

Ele reparou. 

Eu esperei uns segundos, vi que não reagia negativamente, não deixei passar muito tempo e disse "Yes" e atirei as treats ao chão. A Grisha diz que só o acto de curvar para apanhar as treats do chão baixa a frequência cardíaca. 

O cão não se aproximou e a distância claramente era confortável para o Ziggy porque ele estava relaxado. Fui continuando a deitar treats no chão com ele a perceber que o cão estava lá, mas longe o suficiente para se sentir seguro.

Foi uma boa sensação. Ver que ele não reagiu a ladrar e conseguiu, ele próprio, lidar com a situação.

O Dia da Mãe

Mais tarde, por ser Dia da Mãe, fui a casa da minha mãe. Antes de irmos almoçar ao restaurante, fomos dar uma volta pelo bairro dela, um bairro com muitos cães para lá dos portões, que ladram, ladram, ladram. E por norma, o Ziggy devolve o ladrar, fica com o pêlo eriçado e a puxar a trela.

O que fiz? 

Respirei fundo e tentei acalmar-me. Body Check-In, na prática. 

Procurei antever as casas com cães e dirigi-me para o outro lado do passeio para lhe dar espaço. Fui treinando algumas competências de trela que a Grisha ensina (falo noutro post), sempre a dar-lhe espaço, mas procurando manter uma distância confortável dos gatilhos.

E não é que correu bem 3 em 5 vezes? Houve duas situações em que ele reagiu quase automaticamente (não me tinha apercebido da fera, uma chihuahua), mas por três vezes conseguimos ter distância ao gatilho, dizer o Yes quando ele não reagia, afastarmo-nos e recompensar com as treats.

Volto a dizer: isto não é a solução. Mas é uma forma de gerir.

3. Competências de Trela

As competências de trela do BAT merecem um post só para elas (que vou escrever em breve), mas aqui fica o panorama geral. O objectivo é que a trela dê liberdade ao cão sem comprometer a segurança de nenhum dos dois.

Há técnicas básicas, como o Body Bubble (parar sempre que o cão para), a Posição Base com distância de travagem, o ajuste de comprimento da trela, o Slide e o Slow Stop. E há técnicas mais avançadas para situações específicas: o Relax the Leash, o Mime Pulling, o encurtamento de emergência, o faux handle e o leash belay.

São nomes que podem parecer intimidantes, mas na prática traduzem-se numa coisa simples: uma trela que não transmite tensão e que deixa o cão sentir que tem espaço para respirar.

4. Set-Ups para Praticar

Os Set-Ups são situações controladas onde o nosso cão pode praticar lidar com os seus gatilhos de forma gradual e segura. Em vez de esperar que o mundo apresente os desafios de forma aleatória e muitas vezes avassaladora, criam-se ambientes em que a distância, a intensidade e o ritmo são geridos pelo handler, por nós, para que o cão possa ter experiências de sucesso e aprender fluência social real.

Em Resumo

O BAT parte do princípio de que um cão que se sente seguro não precisa de reagir com violência. E que o nosso papel é sermos parceiros de confiança, não controladores. 

Para mim, a parte mais reveladora foi perceber o quanto eu faço parte do problema e da solução. A minha energia, a minha respiração, a minha postura na trela: tudo isso chega ao Ziggy antes de ele sequer ver o outro cão. O BAT não é só treino canino. É também, de certa forma, treino humano.

E estamos a aprender os dois.


Referências:

Artigo escrito com base no seminário: https://school.grishastewart.com/courses/take/batfoundations/lessons/68731213-bonus-video-introduction-to-behavior-adjustment-training-recorded-june-16-2015-in-anchorage-alaska-1-5-hours

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